segunda-feira, 5 de maio de 2014

Infelicidade

(Quando se é causador da sua própria) Será a infelicidade uma questão de azar, uma distribuição cega do destino ou, antes, uma pseudofatalidade para a qual estarão predispostas certas formas de personalidade? Como explicar que ela poupe uns e se abata impiedosamente sobre os outros? Terão a Psicologia e a Psiquiatria qualificações para tornar inteligível tal problema ou será necessário deixar tal questão para filósofos ou teólogos?

Muitos clínicos são confrontados em sobressalto com uma categoria particular de pacientes, cuja abordagem terapêutica se torna difícil pelo simples facto de que eles se esforçam o mais possível para não se curarem, a despeito do seu pedido aparentemente sincero de uma terapia destinada a ajudá-los a viver melhor. Tais especialistas do fracasso e do desencanto, sem distinção de sexo ou idade, singularizam-se por uma alta resistência às intervenções terapêuticas, uma espécie de propensão passional para o deleite sombrio. Queixam-se a qualquer momento de sentimentos de impotência, de falta de confiança em si mesmos e na vida, de ansiedade à mínima mudança, etc. Por vezes tais queixas complicam-se com sintomas diversos, que vão da depressão a alterações comportamentais, passando por perfis de «personalidade patológica»: neurose de carácter, perturbações narcisistas, psicossomáticas... Logo, haverá certas razões do domínio da psicologia humana para explicar - parcialmente, pelo menos - tal distribuição (à primeira vista, aleatória) da infelicidade mediante a arte de fazer a sua própria infelicidade.

Em outra ocasião oportuna:  Repercussão longínqua de uma experiência
Gerações anteriores, perturbações ancoradas na infância, resiliência e aptidão para a felicidade, terapias breves, terapias cognitivas e comportamentais

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